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Izabela Vianna Nutrição
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60+ Saúde do idoso4 min·

Suplementação no idoso: o que faz sentido (e o que é desperdício)

O mercado de suplemento para terceira idade só cresce. Mas a maior parte dos potes que chegam na consulta poderia voltar pra farmácia — e os que faltam, em geral, são outros.

Suplementação no idoso: o que faz sentido (e o que é desperdício)

O paciente idoso chega na consulta com uma sacola. Dentro, em geral, oito a doze potes. Multivitamínico, Coenzima Q10, ômega-3, ginseng, ginkgo biloba, magnésio, glucosamina, condroitina, colágeno hidrolisado, cálcio com vitamina D, e às vezes um anti-inflamatório natural. O custo mensal passa fácil de R$400. E nem metade desses suplementos tem indicação clara pra ele. Ao mesmo tempo, faltam dois ou três que fariam diferença real.

Esse é um dos cenários mais comuns que vejo em paciente acima dos 65 anos. Muita coisa que não precisa, e o que precisa, faltando.

O que costuma valer a pena (com indicação)

Suplementação na terceira idade tem três pilares que aparecem com frequência clínica relevante.

Vitamina D. A síntese cutânea da vitamina D cai significativamente com a idade. Paciente acima dos 70 anos, mesmo com exposição solar razoável, costuma chegar com nível baixo. Em paciente com 25-hidroxivitamina D abaixo de 30 ng/mL, suplementar entre 1.000 e 4.000 UI por dia, com reavaliação em três meses, é prática consolidada. A vitamina D, nesse perfil, tem impacto sobre força muscular, equilíbrio, risco de queda e saúde óssea.

Vitamina B12. A absorção de B12 depende de ácido gástrico adequado, e a função gástrica cai com a idade. Em paciente em uso crônico de omeprazol ou similar, em paciente com gastrite atrófica, em paciente que come pouca proteína animal, a deficiência é frequente. Suplementar entre 500 e 1.000 mcg por dia, em sublingual ou oral, faz diferença sobre cognição, energia e função neurológica. Em deficiência marcada, injetável fica a cargo do médico.

Proteína em pó (quando a dieta não fecha). Não é capricho. Idoso tem anabolic resistance — precisa de mais proteína por refeição pra estimular síntese muscular do que adulto jovem. Em paciente que come pouco no jantar, no café da manhã, ou que tem inapetência, um shake com 20 a 30g de whey ou proteína vegetal de boa qualidade preenche o que a comida não dá. É a forma mais barata de preservar massa magra na terceira idade.

Cálcio (em casos selecionados). Quando a dieta não atinge entre 1.000 e 1.200 mg por dia, principalmente em paciente com osteoporose confirmada ou pós-menopausa antiga sem reposição, a suplementação faz sentido — em doses fracionadas, com vitamina D, e sempre conversado com a médica. Não é pra todo mundo, e dose alta sem critério tem risco de calcificação vascular e renal.

Creatina monohidratada (em paciente que treina força). A literatura nos últimos anos tem mostrado benefício consistente em idoso que faz musculação, em dose de 3 a 5g por dia. Melhora força, função cognitiva e composição corporal. É um dos suplementos mais subestimados em terceira idade.

Ômega-3 (em casos específicos). Paciente com triglicerídeos elevados, com inflamação sistêmica, ou com dieta pobre em peixe pode se beneficiar de 1 a 2g de EPA+DHA por dia. Não é pacote padrão pra todo idoso, mas é justificado em perfis específicos.

O que costuma ser desperdício

A lista do que entra na sacola sem critério é grande. Coenzima Q10 fora de paciente em uso de estatina com queixa muscular — pouca evidência. Ginkgo biloba para "melhorar memória" — corpo de evidência fraco em quem não tem demência diagnosticada. Glucosamina e condroitina em paciente com artrose — meta-análises recentes mostram efeito modesto, e o custo é alto. Colágeno hidrolisado pra "rejuvenescer pele e articulação" — efeito modesto sobre articulação em estudos com dose alta de péptidos específicos, e quase nada sobre estética em quem tem dieta proteica adequada. Multivitamínico genérico — em paciente que come razoavelmente, raramente preenche algum buraco real.

Não é que esses suplementos sejam veneno. É que o paciente está pagando caro por benefício marginal, enquanto deixa de tomar o que realmente faria diferença.

A pergunta certa

Em consulta com idoso, eu costumo pedir pra ele trazer todos os potes. Dou nome a cada um. Pergunto por que está tomando, quem prescreveu, quando começou, e se faz reavaliação. Em geral, dois ou três têm indicação clara. O resto, suspende com calma, com acompanhamento, e a sacola fica leve.

A regra que aplico: suplemento na terceira idade entra com exame, com indicação, com dose e com tempo definido. E sai, ou continua, com reavaliação. Não é coleção. É terapia.

O dinheiro que sai do que não precisa pode entrar onde de fato muda a vida: proteína de qualidade, peixe duas vezes na semana, fruta e vegetal abundantes, vitamina D dosada, B12 quando indicada, e creatina se há treino de força. Esse pacote, em geral, custa muito menos do que a sacola que chegou — e sustenta o paciente bem melhor.

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