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Izabela Vianna Nutrição
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ITU recorrente: o que investigar pelo viés da dieta

Infecção urinária que volta e volta cansa qualquer paciente. A nutrição não substitui a investigação médica, mas tem terreno próprio que vale olhar.

ITU recorrente: o que investigar pelo viés da dieta

A paciente chega esgotada. Foi a quinta infecção urinária em um ano. Toma antibiótico, melhora, volta dois meses depois. O ginecologista já pediu cultura, uroginecologia já investigou anatomia, urologista já viu rim. A médica acompanha de perto, mas pergunta se "tem algo da nutrição pra ajudar". Tem. Não substitui exame nenhum, e não trata infecção aguda, mas há terreno alimentar que vale revisitar — e que muita paciente nunca olhou.

ITU de repetição em mulher tem causas que vão de anatomia a comportamento, passando por microbiota. A nutrição entra no capítulo de hidratação, microbiota e padrão alimentar.

O básico que muita gente pula

Hidratação adequada continua sendo o fator não nutricional mais importante na prevenção de ITU recorrente. Paciente que toma 700 a 900 ml de água por dia, em clima quente, com fluxo urinário escasso, dá oportunidade para a bactéria colonizar a bexiga. A literatura é razoavelmente consistente: aumentar a ingestão diária para entre 30 e 35 ml/kg reduz a frequência de episódios.

Em consulta, isso parece banal, e por isso fica de lado. Mas é o ajuste que mais frequentemente muda a curva. Costumo pedir pra paciente medir um dia o que ela bebe — quase sempre vem o susto. Da água ela toma pouco. Do café e do refrigerante zero, muito.

A microbiota entra no rastreio

A microbiota intestinal e vaginal influenciam o risco de ITU. A maior parte das infecções é causada por E. coli que migra do trato digestivo. Quando a microbiota intestinal está desequilibrada (uso recorrente de antibiótico, dieta pobre em fibra, ultraprocessado em alta dose), aumenta o reservatório de cepas patogênicas. Quando a microbiota vaginal está desequilibrada (queda de lactobacilos, mais comum em menopausa, em uso de duchas, em alguns anticoncepcionais), a barreira local fica reduzida.

A nutrição mexe nessa parte por mecanismo indireto. Dieta com fibra adequada (entre 25 e 35g por dia), com alimentos fermentados em pequena quantidade diária (iogurte natural, kefir, chucrute, kimchi), com leguminosa frequente, com vegetais variados, sustenta a microbiota intestinal. Em alguns casos, em conjunto com a médica, probiótico com cepas específicas (Lactobacillus rhamnosus GR-1 e Lactobacillus reuteri RC-14, por exemplo) tem evidência razoável para reduzir recorrência. A escolha não é genérica, e por isso entra com critério.

O cranberry: o que sabemos hoje

A literatura sobre cranberry para prevenção de ITU é complicada. Estudos mais antigos sugeriam benefício, estudos mais recentes mostram efeito modesto em populações selecionadas. A atualização Cochrane mais recente sugere que o cranberry pode reduzir o risco de recorrência em mulheres com ITU frequente, em formulações concentradas com proantocianidinas padronizadas, em dose adequada.

Suco de cranberry adoçado de supermercado não conta — costuma ter pouca PAC ativa e muito açúcar, e o açúcar pode até atrapalhar. Cápsula concentrada padronizada, em paciente selecionada, conversada com a médica, é onde o uso clínico se sustenta. Não é cura, é ferramenta adicional em paciente certa.

D-manose: o adendo

Outro recurso que aparece com frequência é a D-manose, um açúcar simples que se liga às fímbrias da E. coli e impede a aderência à parede da bexiga. Estudos recentes mostram benefício na prevenção de recorrência, em dose ao redor de 2g por dia, em paciente com ITU frequente por E. coli. É um recurso seguro, com poucos efeitos colaterais, e cada vez mais usado em conjunto com a abordagem médica. A indicação parte do urologista ou ginecologista, e a nutrição entra no acompanhamento.

O que costumo ajustar em consulta

Em paciente com ITU recorrente, o pacote nutricional que monto inclui:

Hidratação alvo entre 30 e 35 ml/kg, distribuída ao longo do dia. Redução do consumo de bebida alcoólica e refrigerante. Aumento de fibra com leguminosas, vegetais variados, aveia, sementes. Alimentos fermentados em pequena quantidade diária. Redução de ultraprocessado, açúcar em alta carga, e aditivos. Em paciente com sintoma de resistência à insulina (que aumenta risco de ITU em algumas séries), ajuste do carboidrato refinado e atenção ao padrão glicêmico. Em paciente vegetariana ou com dieta muito monótona, ajuste da diversidade alimentar.

Nada disso substitui antibiótico em episódio agudo, cultura para identificar a cepa, ou avaliação ginecológica e urológica completa. O que a nutrição faz é compor o terreno pra que a recorrência se torne menos frequente. Em paciente que junta o cuidado médico com o ajuste nutricional consistente, a curva de episódios costuma cair em meses.

A frase que costumo repetir: ITU recorrente é trabalho de equipe, e a comida é uma das pernas — não a única, e não a principal, mas uma que vale acertar.

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