Pular para o conteúdo
Izabela Vianna Nutrição
Todos os posts
Gestação e Pós-parto6 min·

Cólicas no bebê: a dieta da mãe interfere mesmo?

A primeira recomendação que a mãe que amamenta recebe é cortar tudo. Em consulta, a história é mais nuançada — e bem menos restritiva.

Cólicas no bebê: a dieta da mãe interfere mesmo?

A mãe chega na consulta com o bebê de seis semanas chorando há quarenta minutos seguidos no fim da tarde. Ela está exausta. A vó disse que é a couve do almoço. A vizinha disse que é o feijão. A sogra disse que é o leite. A internet disse que pra evitar cólica do bebê é melhor cortar laticínio, glúten, soja, ovo, brássica, leguminosa, alho, cebola, chocolate, cafeína, e mais umas vinte coisas. Em duas semanas seguindo essa lista, a mãe está com perda de peso preocupante, fome o tempo inteiro, e o bebê continua com cólica.

A cena é comum, e o problema também é comum: a recomendação genérica de "cortar tudo" não tem base na maioria dos casos, e prejudica mais a mãe do que ajuda o bebê. A relação entre dieta materna e cólica do lactente existe em alguns casos específicos, mas é muito menos extensa do que o senso comum sugere.

O que é cólica do lactente, na prática

Antes de mexer na dieta da mãe, vale entender o que está acontecendo com o bebê. Cólica do lactente é uma condição com características próprias — choro intenso, em geral no fim da tarde ou início da noite, com flexão de pernas sobre o abdômen, face avermelhada, em bebê saudável com ganho de peso adequado. Ela aparece em torno das duas semanas de vida, picos por volta da sexta a oitava semana, e regride espontaneamente em torno do terceiro ao quarto mês.

A causa não é única. Imaturidade do trato gastrointestinal, microbiota intestinal ainda se organizando, hipersensibilidade visceral, padrão neurológico de regulação que ainda está sendo construído, refluxo, deglutição de ar durante a mamada, e em alguns casos sensibilidade a proteínas da dieta materna — tudo pode contribuir, em proporções diferentes em bebês diferentes.

A boa notícia é que cólica do lactente, mesmo intensa, não significa que algo está errado com o bebê. É uma fase, dura semanas, melhora. A má notícia é que enquanto está acontecendo, é exaustivo.

Quando a dieta materna realmente importa

A intervenção alimentar que tem evidência mais consistente, em bebês com cólicas que claramente não cedem com outras medidas, é a eliminação de proteína do leite de vaca (PLV) na dieta materna. Cerca de 5 a 15% dos bebês podem ter sensibilidade não-IgE à proteína do leite de vaca que se manifesta como cólicas intensas, sangue oculto nas fezes, refluxo importante, ou eczema. Nesse subgrupo, eliminar laticínios da dieta materna por duas a quatro semanas resulta em melhora clara dos sintomas.

Vale ressaltar: estamos falando de eliminação cuidadosa, com acompanhamento de nutricionista, garantindo que a mãe mantenha aporte adequado de cálcio, proteína, vitamina D e B12. E vale o teste de reintrodução depois de algumas semanas pra confirmar — se a reintrodução piora claramente os sintomas, a sensibilidade fica confirmada; se não, a eliminação pode terminar.

Em alguns casos mais raros, sensibilidade a soja, ovo, trigo ou outras proteínas pode também estar envolvida. Mas isso é minoria dentro da minoria. Cortar todos esses alimentos preventivamente, sem evidência clínica, não tem base.

O que provavelmente não interfere

Aqui está a parte que mais alivia a mãe em consulta. A maior parte dos alimentos que vovó e a internet apontam como vilões não tem evidência consistente de impactar cólica. Feijão, brócolis, couve, repolho, cebola, alho — esses alimentos podem gerar gases na mãe, mas o gás que se forma no intestino dela não atravessa a barreira intestinal e nem o leite materno como gás. A teoria de que "o feijão da mãe vira cólica no bebê" não se sustenta na fisiologia.

Cafeína em quantidade moderada (até 200 a 300 mg por dia, equivalente a duas xícaras pequenas de café) não costuma trazer problema para a maioria dos bebês. Em bebês mais sensíveis, a cafeína pode interferir no sono, e nesse caso pode valer reduzir. Mas não é regra para todas as mães.

Chocolate, em quantidade comum, não está associado a cólicas. Frutas cítricas tampouco. Tempero e ervas habituais da cozinha brasileira tampouco.

A primeira investigação não é a dieta da mãe

Quando a mãe chega no consultório angustiada com cólicas, antes de mexer na dieta dela, eu costumo conversar sobre alguns outros pontos primeiro.

A mamada está bem posicionada, com pega adequada, evitando que o bebê engula ar em excesso? Em bebê com pega ruim, a aerofagia é causa muito comum de desconforto, e mexer na dieta da mãe não resolve.

Há sintomas de refluxo significativo, com regurgitações frequentes e desconforto? Refluxo precisa de avaliação pediátrica e tem manejo próprio.

Há outros sinais sugestivos de alergia à proteína do leite — sangue oculto nas fezes, eczema, refluxo grave, ganho de peso ruim? Aí sim, eliminação supervisionada da PLV pode ser tentativa razoável.

O bebê está em uso de fórmula complementar? A fórmula pode ser parte do quadro, e nesse caso a conversa muda inteiramente.

O cuidado com a mãe

A mãe que amamenta precisa de em torno de 500 calorias extras por dia, com aporte proteico generoso, ômega-3, ferro, cálcio, vitamina D, B12 e iodo. Quando uma mãe corta laticínio, glúten, soja, ovo e leguminosa "por garantia", o que sobra é dieta restrita demais para sustentar a amamentação por meses, e o impacto sobre energia, humor, sono e a própria amamentação é grande.

Em consulta, vejo mães chegarem com cabelo caindo, unhas frágeis, anemia, e sintomas depressivos por terem feito eliminação alimentar agressiva sem indicação clínica e sem suporte nutricional adequado. Esse cenário precisa ser evitado.

Quando há indicação real de eliminação (sobretudo a PLV), o trabalho é organizado: mapear todas as fontes alimentares e ocultas do alérgeno em questão, substituir com alternativas equivalentes nutricionalmente, suplementar o que for necessário (cálcio, vitamina D, B12 quando indicado), e acompanhar a evolução do bebê e da mãe.

Quando procurar pediatra antes da nutri

Cólica intensa que vem acompanhada de sangue nas fezes, vômitos importantes, ganho de peso ruim, irritabilidade muito acima do habitual, eczema severo, ou qualquer sinal de doença merece avaliação pediátrica antes de qualquer mudança alimentar materna. Esses são sinais que escapam do guarda-chuva da "cólica simples" e precisam de investigação.

Em bebê com cólica típica, que ganha peso, mama bem, e tem sintoma limitado ao choro do fim da tarde, a primeira linha não é dieta materna restritiva. É posicionamento de mamada, conforto, contato pele a pele, banho morno, alguns ajustes simples, e paciência. A fase passa. E a mãe atravessa esse período mais leve quando não está, simultaneamente, em dieta restritiva desnecessária.

Pronta para começar sua jornada?

Agende sua primeira consulta e vamos construir juntos um plano alimentar que respeite sua rotina e seus objetivos.

Agendar consulta

continue lendo

Outros textos que talvez te interessem.

Falar no WhatsApp