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Izabela Vianna Nutrição
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Carga de carboidrato pré-prova: como fazer (e quando não vale)

Saturar o glicogênio antes de uma prova longa muda performance. Mas a estratégia tem prazo, dose e perfil — e em prova curta, não faz diferença.

Carga de carboidrato pré-prova: como fazer (e quando não vale)

O atleta amador chega na consulta uma semana antes da meia maratona. Já treinou bem, já sabe o pace, já testou o tênis. A pergunta que vem é a clássica: "como faço a carga de carboidrato nos dias anteriores?" Em geral ela já viu duas ou três versões diferentes online, vai dormir confusa, e termina jantando macarrão na noite anterior achando que cumpriu o protocolo. Esse é o cenário em que mais vejo gente desperdiçar uma estratégia que, bem feita, entrega ganho real.

A carga de carboidrato é uma das poucas intervenções nutricionais com literatura sólida e impacto mensurável em performance — quando a prova tem mais de 90 minutos de esforço contínuo. Em distância menor, a estratégia perde a função, e em alguns casos atrapalha mais do que ajuda. Vou desenhar como costumo orientar em consulta, e onde mais vejo atleta amador errando.

O que está em jogo

Durante esforço contínuo de intensidade moderada a alta, o corpo usa três combustíveis principais: glicogênio muscular, gordura corporal e, em menor proporção, proteína. A oxidação de gordura é praticamente infinita em recursos, mas é mais lenta. O glicogênio é o combustível "rápido" que sustenta intensidade alta — e ele é finito. Em geral, um atleta treinado consegue armazenar entre 400 e 600 g de glicogênio entre músculo e fígado, o que dá aproximadamente 1.600 a 2.400 kcal de combustível pronto.

Em prova de meia maratona ou maratona, mantendo pace de competição, o consumo de glicogênio acelera. Sem reposição durante a prova, o estoque acaba em algum momento — e o atleta encontra o famoso "muro", a queda de rendimento brusca por hipoglicemia muscular relativa. Em prova de 5 km ou 10 km, o esforço é mais curto, e o glicogênio não chega perto de zerar.

A carga de carboidrato pré-prova faz uma coisa simples: leva o estoque de glicogênio do basal (em torno de 80-100 mmol/kg de músculo) pra um nível supercompensado (até 200 mmol/kg em alguns atletas). Isso adiciona horas de combustível disponível antes do esgotamento, e em prova longa, isso aparece no cronômetro.

Quando a carga vale (e quando não)

Em consulta, eu separo provas por duração estimada de esforço.

Provas com menos de 60 minutos (5 km na maioria dos corredores amadores, corridas de rua curtas, sprint triathlon partes individuais): a carga não traz benefício. O glicogênio basal de quem tem alimentação razoável já cobre a prova com folga. O que vale é dormir bem, comer um café da manhã leve com carboidrato 2-3 horas antes, e estar bem hidratado.

Provas entre 60 e 90 minutos (10 km mais rápido, prova de natação de águas abertas curta, ciclismo recreativo de uma hora e pouco): zona cinzenta. A carga pode ter benefício pequeno em alguns atletas, principalmente os mais rápidos, mas a saturação completa não é necessária. O que costumo recomendar é mantida de carboidrato adequado nos últimos 2-3 dias, sem necessidade de saturação total.

Provas com mais de 90 minutos (meia maratona pra grande maioria, maratona pra todos, ciclismo de média e longa distância, triathlon olímpico e meio Ironman): aqui a carga faz diferença. A literatura mostra ganhos de 2 a 3% no tempo, o que em uma meia maratona é a diferença entre cinco minutos a mais ou menos.

Provas muito longas (Ironman, ultramaratona, ciclismo de longa distância): a carga é parte do protocolo, mas a estratégia durante a prova (alimentação contínua) pesa ainda mais. Não dá pra "carregar" no fim de semana e atravessar oito horas sem repor.

Como faço a carga acontecer (protocolo prático)

O protocolo clássico, que cabe pra atleta amador, é a versão simplificada de 2 a 3 dias antes da prova. A versão antiga, dos anos 70, incluía uma fase de depleção com dieta cetogênica forçada antes da carga, e foi abandonada por causar mais prejuízo que benefício.

A versão atual funciona assim:

Quantidade alvo. Entre 8 e 10 g de carboidrato por kg de peso por dia, durante 2 a 3 dias. Pra uma pessoa de 65 kg, isso significa 520 a 650 g de carboidrato por dia — uma quantidade bem maior do que o que costuma estar na rotina.

Reduzir gordura e fibra. Pra caber tudo isso, a refeição precisa estar mais densa em carboidrato e mais leve em outros componentes. Reduzir alimento muito gorduroso (frituras, queijo amarelo em volume, embutido), reduzir excesso de fibra (vegetal cru em grande volume, leguminosa em quantidade alta, fruta com muita fibra) ajuda no conforto digestivo e libera espaço gástrico.

Proteína moderada. Cerca de 1,2 a 1,5 g por kg, distribuída em três a quatro refeições. Não é fase de cortar proteína, é fase de não exagerar.

Reduzir volume de treino. Os dois ou três dias da carga coincidem com o tapering, que é a redução de carga de treino antes da prova. Isso ajuda a poupar o glicogênio acumulado.

Como o cardápio fica na prática

Pra uma corredora de 60 kg fazendo meia maratona no domingo, a carga começa na sexta-feira:

Café da manhã: 4-5 fatias de pão branco ou integral leve, geleia, banana, café com leite desnatado. Cerca de 90-110 g de carboidrato.

Lanche manhã: 1 banana grande com mel, suco de uva natural. Cerca de 60 g.

Almoço: 2 conchas de arroz, 2 colheres de molho de tomate, 1 porção pequena de frango grelhado, batata cozida, suco. Cerca de 130-150 g.

Lanche tarde: 1 fatia de bolo simples ou 3 biscoitos água e sal com geleia, suco. 70-80 g.

Jantar: 1 prato de macarrão com molho de tomate, 1 porção pequena de proteína, pão. 130-150 g.

Antes de dormir: vitamina com banana, leite e mel. 40-50 g.

Total aproximado: 540-620 g de carboidrato.

Sobre os dois dias da carga, esse padrão se repete com variações. No dia da prova, o café da manhã é mais simples: o que a atleta já testou em treino longo, 3-4 horas antes, com cerca de 1-2 g de carboidrato por kg.

Os erros mais comuns

Carregar apenas na noite anterior. Esse é o erro mais frequente. Um prato gigante de macarrão sábado à noite não satura glicogênio o suficiente. A saturação leva tempo, e dois dias de ingestão alta funcionam muito melhor que um prato grande no dia anterior. Macarrão na véspera ainda fica pesado no estômago e pode atrapalhar o sono.

Comer carboidrato gorduroso em volume alto. Pizza, lasanha, esfiha, hambúrguer. Esses alimentos têm carboidrato sim, mas vêm com tanta gordura que o estômago fica pesado e a digestão lenta. Pra carga, o melhor é carboidrato mais limpo (arroz, macarrão simples, pão, batata, fruta, geleia, mel, suco de uva).

Testar pela primeira vez no dia da prova. Qualquer estratégia precisa ser testada em treino. Atleta que vai fazer carga pela primeira vez na semana da prova-alvo está experimentando no pior momento possível. O ideal é simular em pelo menos uma sessão de treino longo antes.

Aumentar fibra junto com o carboidrato. Comer dois pratos de arroz integral, feijão em volume grande, salada crua abundante, frutas com casca. Em vez de saturar glicogênio, o atleta enche o intestino e acorda no dia da prova com distensão e desconforto.

Pesar na balança no dia. Saturação de glicogênio puxa 3 g de água por grama de glicogênio. A atleta sobe na balança no dia da prova e está 1,5 kg mais pesada que ontem. Isso é água ligada ao combustível, não gordura. É um sinal de que a carga funcionou — mas costuma assustar quem não foi avisada.

O que faz diferença mais do que a carga em si

A carga de carboidrato sozinha não substitui treino. Atleta que treinou pouco, que dormiu mal a semana inteira, que não cuidou de hidratação durante a fase de tapering, não vai compensar isso só com macarrão. A carga é o ajuste fino, não o motor.

O que precisa estar em ordem antes da carga importar:

Treinamento bem distribuído nos meses anteriores. Tapering apropriado nos 10-14 dias antes. Sono de qualidade. Hidratação adequada nos dias da carga (acompanhar o aumento de carboidrato com aumento de água, porque a água puxada pra dentro do músculo precisa entrar de algum lugar). Refeição pré-prova testada em treino. Estratégia de carboidrato durante a prova (gel, isotônico, balinha) para esforço acima de 75-90 minutos. Pé no chão sobre expectativa — a carga melhora performance dentro do potencial do atleta, não cria milagre.

Para quem evita a carga

Em paciente com refluxo importante, com síndrome do intestino irritável, com diabetes ou resistência marcada à insulina, o protocolo padrão pode não caber. Pra esses perfis, eu trabalho versões mais moderadas (5-7 g/kg em vez de 8-10), com escolha mais cuidadosa de fonte de carboidrato, e com testagem cuidadosa em treino.

Atleta vegetariana ou vegana faz a carga normalmente — arroz, macarrão, batata, fruta, suco são plant-based. A diferença é só no acompanhamento proteico, que deve estar bem desenhado o resto do tempo.

O que costuma sair em consulta no dia seguinte à prova

Atleta que fez a carga corretamente em geral relata mais energia nos últimos quilômetros, menos sensação de "vazio" no fim, e recuperação um pouco mais rápida no dia seguinte. Atleta que pulou a carga ou fez errado tende a relatar a sensação clássica de fadiga progressiva e "quebra" no final.

Performance é multifatorial. A nutrição não compensa preparo físico mal-feito, mas potencializa o que já está bem construído. A carga de carboidrato é uma das poucas estratégias com retorno tão consistente quanto previsível — se respeitar prazo, dose e contexto da prova.

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